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1.2.09

"o jogador do Povo" *

Só podia ter sido ele. Não havia outra hipótese. O suspeito do costume entrou em cena, e como é hábito resolveu. Foram noventa minutos de muito pouco futebol, com muito suor luta e lama à mistura. O público ia ficando agastado com a chuva e o mau futebol que a flor do relvado, ou campo de arroz, não atava nem desatava mas em trinta segundos e quando o jogo parecia já destinado a um empate, entrou Pedro Mantorras e a esperança na luz renasceu.

Há quem diga que o futebol se escreve por caminhos misteriosos e o caso de Pedro Mantorras é tão insólito que até eu, um fervoroso benfiquista, tenho dificuldades em entender. De futura estrela passou a mártir e de mártir foi um pequeno passo até ser herói. O pequeno passo foi uma recuperação difícil e atribulada que culminou em seis fulcrais golos que levaram o Benfica ao título na época de 2004/2005. Aquilo que mais estranha um adepto comum no jogo de Pedro Mantorras é a forma desengonçada e pouco ortodoxa do seu jogo, é obvio que algum talento ainda ali está, mas é impossível não reparar nas dificuldades que o angolano tem sempre que tem a bola nos pés. As várias lesões mal curadas, e criadas pelo departamento técnico e clínico do Benfica, impediram a sua progressão. O super-talento que encantou Portugal, hoje não passa de um (literal) coxo, mas mesmo sendo um coxo, a verdade é que o coxo vai marcando um golo em cada 109 minutos! Quando vemos Mantorras a jogar não pensamos “Como é que este tipo joga na primeira liga, pensamos imediatamente como é que este tipo ainda joga sequer futebol?”

Já aqui falei do poder do simbolismo no futebol, e por mais que tenhamos os olhos fechados, é preciso admitir que o Mantorras é um símbolo no Benfica e uma figura impar no mundo do futebol. Quando falo deste destaque no futebol refiro-me, claro, no seu efeito anímico nas bancadas pois nenhum jogador do mundo com tão pouco rendimento é tão adorado pela massa adepta de um clube, que normalmente até é mais exigente que os outros. Não é qualquer um que entra no goto no chamado “terceiro anel”, Nuno Gomes ou Néné que o digam, porém, Mantorras e sem ter sido um grande avançado da história do clube consegue por um estádio todo em pé! È um efeito inacreditável que só quem já o presenciou é que pode compreender. Para terminar, penso sinceramente que o nome de Mantorras perdurará na historia do futebol português. Não será pelos mesmos motivos que nos lembraremos de Figo, Eusebio ou Cristiano Ronaldo, mas será pela razão daquilo que apelido “efeito Mantorras”. O efeito de esperança num jogo perdido, efeito de acreditar que ainda é possível vencer as dificuldades fácticas quase intransponíveis, efeito de entusiasmar até o público do mais enfadonho jogo de futebol. Por tudo isto, obrigado Pedro Mantorras.

* a frase do titulo não é minha e pretence ao Helder Conduto que no ultimo jogo não se cansou de assim apelidar o "Mago do Golo", para quem poderá eventualmente criticar o conteudo deste texto, digo que um pouco de parcialidade de vez em quando não faz mal!

3.1.09

O mito

O tempo que passou já me dá segurança suficiente para falar sobre o que se passou no estádio Olímpico de Berlim quando Zidane perdeu a cabeça e deu a famosa cabeçada ao defesa-central italiano Marco Materrazi. Se tivesse escrito na altura este post (nem o poderia ter feito pois ainda não me tinha surgido a ideia que seguidamente irei desenvolver) estaria a cair no perigoso campo do tendencioso pois os meus pensamentos estariam obviamente moldados pelo calor do momento, e por toda a paixão que a sensacional cabeçada despertou, não só em franceses e italianos mas como em todos os adeptos em geral.

Para aqueles que pensam que Zidane deveria ter acabado de taça na mão e não passando casbisbaixo ao lado dela eu digo: Estão enganados. Ao agredir Materrazi, Zizou libertou-se da lei do esquecimento e consagrou a sua figura como uma lenda do futebol mundial. Não lhe bastou ter sido 2 vezes considerado o melhor do mundo. Não. Teve que terminar em grande, e conseguiu-o. Primeiro, fez a tarefa (quase) impossível de levar uma depauperada e desisnpirada França até à final de um campeonato mundial onde eliminou Espanha, Brasil e Portugal, depois, e após um grande jogou onde marcou um golo, culminou a sua gloriosa carreira com uma imagem que vai ficar para sempre…O herói, mostrou a sua fraqueza, encontrou o seu vilão, e para encantar e emocionar o publico não há nada como assistir à queda de um herói. Zidane naquele momento caiu. Mas a sua queda, como a de Aquiles ou Heitor é um épico monumental à qual ninguém ficou indiferente. A cabeçada de Zidane é quase marco cultural: fizeram-se canções, discutiu-se exaustivamente na opinião pública, escreveram-se livros, especulou-se o que Materazzi terá dito, até em filmes há referências ao mítico confronto entre os dois jogadores. O que me fez escrever este post, foi a resposta de um aluno retratado no filme a Turma quando lhe pergunta aquilo que ele odeia. Terá respondido por acaso Zidane? Não, respondeu Materrazi, e por favor, se consegui alguma atenção nesta minha mensagem, já alguma vez se perguntaram porque é que teve que ser a Marco Materrazzi um dos mais odiados futebolistas do planeta que Zidane deu a cabeçada? Curioso, ou então não!

Para se ser uma lenda, um herói, é preciso mais do que muito talento e uma carreira fenomenal no futebol. Pelé teve o regime brasileiro e os dólares americanos, Best o álcool e o seu comportamento de playboy e Maradona, bem, Maradona teve para além da maldita cocaína, a mão de Deus, a máfia, a dicotomia norte-sul de Itália, o filho ilegítimo e o facto de jogar num clube pequeno como factores essenciais para mistificar a sua existência. Sem as suas fraquezas e contradições, provavelmente el Pibe de oro teria sido um grande jogador (como Rivaldo, Figo, Laudrup) mas nunca um Deus. Zidane, conseguiu chegar perto do Olimpo pois não só venceu em tudo no futebol como mostrou a sua faceta mais selvagem.

Para aqueles que acham este texto pateta e despropositado, digo-vos já que aceito essa opinião. Eu próprio durante muito tempo pensei assim. Agora, proponho-vos o seguinte exercício: de que se lembram vocês quando vos vem à memória o mundial de 2006, o Fábio Canavarro a levantar a taça ou a cabeçada do Zizou?

este post foi simultaneamente publicado em www.playingatmyhouse.wordpress.com

1.10.08

Loucura ou genialidade?

De cabelos longos, farto bigode e com um estilo de jogo que me fez lembrar o Nuno Assis, lento mas tecnicista, nada fazia esperar que o camisola sete da Checoslováquia se tornasse uma lenda naquela tarde de primavera de 1976. O jogo era uma final de um Europeu, e frente a frente estavam a poderosa e campeã do mundo Republica Federal da Alemanha e a Checoslováquia, curiosamente dois países afectados pelo “muro da vergonha” mas que estavam de lados diferentes da barricada de uma guerra ideológica.

Depois de um intenso dois a dois durante os 90’ e o prolongamento a partida teve que ser decidida na marca dos onze metros, quando Uli Hoeness falhou a quarta grande penalidade alemã toda a pressão recaiu em Antonin Panenka um médio do desconhecido “boehians de Praha” que com toda a classe marcou a Sepp Maeir (para muitos o melhor guarda redes do mundo naquela altura) o mais espectacular penalty da história do futebol fazendo um balão que entrou mesmo no meio da baliza do desamparado guardião germânico.

Os ecos desta penalidade, para além de terem coroado vitoriosa a Checoslováquia como campeã europeia, elevaram o seu autor aos céus do Olimpo, ficando recordado para sempre como o autor do “penalty à Panenka”. Muitos outros jogadores conseguiram “imitar” o checo com sucesso, todos se lembram da loucura de Hélder Postiga no Euro’2004 ou de Francesco Totti que na meia-final do euro 2000 se vira para o seu capitão dizendo que ia marcar “à panenka” e apesar de ter sido quase demovido por Maldini “El Banbino d’oro” afasta-se a rir e marca deixando a multidão à beira da loucura. Se Totti e Postiga tiveram os deuses do seu lado quando arrojadamente tentaram o penalty mais arriscado que se pode fazer, Jaime Junior teve um fim triste quando a 1 m do final tenta a mesma gracinha e falha e faz com que a sua equipa perca o jogo. Para que conste, dois dias depois do sucedido Jaime foi despedido do Leixões

O facto de o penalty ser o embate mais frio entre o guarda-redes e o avançado, de ser um elemento de decisão (ou de indecisão) que pode ,ou não, separar duas equipas é o que lhe confere tanta importância no futebol. O imaginário do penalty enquanto frustração ou emoção é fundamental no jogo. Muitas alegrias e tristezas foram já experimentadas por uma defesa ou por uma bola no poste do adversário, e isto que o digam Terry, Baggio ou Southgate (todos jogadores que falharam penaltys decisivos). Todavia, o que Panenka fez naquela tarde, foi mais do que um acto extravagante que poderia ter custado um campeonato da Europa, aquele penalty é umaobra-de-arte digna de um verdadeiro génio. Todos podem odiar que um jogador arrisque marcar “à panenka”, mas a verdade é que se a bola entra, a besta vira logo a herói.

27.9.08

O Rei

Para fechar esta trilogia de “grandes portugueses” acabo, como seria de esperar, com o Rei. O Rei Eusébio da Silva Ferreira nasceu a vinte cinco de Janeiro de 1942 em Lourenço Marques (Maputo) e a história lembrar-se-á dele como o “Pantera Negra”. O talento evidenciado por Eusebio no Sporting de Lourenço Marques foi o suficiente para que o clube da metrópole o tenha vindo buscar para jogar no campeonato português. Todavia quis o destino que o “pantera” brilhasse noutras paragens e levou-o não ao José de Alvalade mas sim ao estádio da Luz. A carreira com a camisola 13 do Benfica é sobejamente conhecida por todos os portugueses, e não só, se viram o filme “love actually” uma das personagens refere-se a Eusébio quando quer exemplificar a cultura portuguesa.

317 Golos em 301 jogos com a camisola do Benfica são números que nunca ninguém ligado ao clube da águia vai esquecer. Os 9 golos marcados no mundial de ’66 também são uma marca mítica não só para benfiquistas mas para todos os portugueses. O nome de Eusébio perdurará na história do futebol mundial, como um dos avançados mais mortíferos de sempre. Os títulos conquistados na década de sessenta pelo Benfica e os (muitos) golos que marcou são legado de um homem martirizado por entradas violentas de adversários impotentes ao perfume do seu futebol, que resultaram em 7 operações aos dois joelhos obrigando Eusébio a jogar muitas vezes em situações muitíssimo dolorosas. Num documentário que vi há alguns anos um médico que o operou na altura disse que as lesões de Eusébio, hoje seriam impeditivas de jogar futebol ao mais alto nível…

Como definir Eusébio como jogador? Essa é uma questão que muito dificilmente posso responder pois nunca o vi jogar. Dos muitos documentário e vídeos que vi dele, podemos dizer que era um avançado, muito rápido, muito forte e com um remate fulminante. Do que entendi, era daqueles jogadores de remate tão fácil que marcava golos de todas as formas e maneiras possíveis, isto é, se estivessem quatro defesas pela frente o resultado era o mesmo que se estivesse isolado frente ao guarda-redes, golo…

Há pouco mais a dizer sobre Eusébio, que há pouco tempo foi considerado por uma votação online da FIFA como o terceiro melhor jogador de sempre, a não ser que foi, é ,e sempre será um símbolo da pátria. As imagens de Eusébio de braços no ar a festejar um golo, a voz de Artur Agostinho a gritar em plenos pulmões “GOOOOLO DE EUSEBIO” ou a fotografia tirada no mundial de ’66 quando perdemos contra a Inglaterra, ficará não só na minha memória mas na memoria de várias gerações diferentes de portugueses. Eu não sou minimamente do tempo dele mas tenho-o em mente como um idolo se isto não é ser uma lenda viva, o que será?