Só podia ter sido ele. Não havia outra hipótese. O suspeito do costume entrou em cena, e como é hábito resolveu. Foram noventa minutos de muito pouco futebol, com muito suor luta e lama à mistura. O público ia ficando agastado com a chuva e o mau futebol que a flor do relvado, ou campo de arroz, não atava nem desatava mas em trinta segundos e quando o jogo parecia já destinado a um empate, entrou Pedro Mantorras e a esperança na luz renasceu. Há quem diga que o futebol se escreve por caminhos misteriosos e o caso de Pedro Mantorras é tão insólito que até eu, um fervoroso benfiquista, tenho dificuldades em entender. De futura estrela passou a mártir e de mártir foi um pequeno passo até ser herói. O pequeno passo foi uma recuperação difícil e atribulada que culminou em seis fulcrais golos que levaram o Benfica ao título na época de 2004/2005. Aquilo que mais estranha um adepto comum no jogo de Pedro Mantorras é a forma desengonçada e pouco ortodoxa do seu jogo, é obvio que algum talento ainda ali está, mas é impossível não reparar nas dificuldades que o angolano tem sempre que tem a bola nos pés. As várias lesões mal curadas, e criadas pelo departamento técnico e clínico do Benfica, impediram a sua progressão. O super-talento que encantou Portugal, hoje não passa de um (literal) coxo, mas mesmo sendo um coxo, a verdade é que o coxo vai marcando um golo em cada 109 minutos! Quando vemos Mantorras a jogar não pensamos “Como é que este tipo joga na primeira liga, pensamos imediatamente como é que este tipo ainda joga sequer futebol?”
Já aqui falei do poder do simbolismo no futebol, e por mais que tenhamos os olhos fechados, é preciso admitir que o Mantorras é um símbolo no Benfica e uma figura impar no mundo do futebol. Quando falo deste destaque no futebol refiro-me, claro, no seu efeito anímico nas bancadas pois nenhum jogador do mundo com tão pouco rendimento é tão adorado pela massa adepta de um clube, que normalmente até é mais exigente que os outros. Não é qualquer um que entra no goto no chamado “terceiro anel”, Nuno Gomes ou Néné que o digam, porém, Mantorras e sem ter sido um grande avançado da história do clube consegue por um estádio todo em pé! È um efeito inacreditável que só quem já o presenciou é que pode compreender. Para terminar, penso sinceramente que o nome de Mantorras perdurará na historia do futebol português. Não será pelos mesmos motivos que nos lembraremos de Figo, Eusebio ou Cristiano Ronaldo, mas será pela razão daquilo que apelido “efeito Mantorras”. O efeito de esperança num jogo perdido, efeito de acreditar que ainda é possível vencer as dificuldades fácticas quase intransponíveis, efeito de entusiasmar até o público do mais enfadonho jogo de futebol. Por tudo isto, obrigado Pedro Mantorras.
* a frase do titulo não é minha e pretence ao Helder Conduto que no ultimo jogo não se cansou de assim apelidar o "Mago do Golo", para quem poderá eventualmente criticar o conteudo deste texto, digo que um pouco de parcialidade de vez em quando não faz mal!

