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28.4.09

Lost in translation- o futebol é um lugar estranho.

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Normalmente discutimos o porquê de um jogador não dar certo num clube e noutro qualquer, se calhar 2km ao lado, ser uma mais-valia indiscutível. A resposta mais comum será o ambiente vivido nos dois clubes como razão para a diferença de rendimento tão díspar de um jogador que numa equipa mostra qualidades e noutra é o bobo da festa. A parte psicológica é sem dúvida importante para o desenvolvimento de um jogador numa equipa. Certamente, e a bem do futebol, não é a única. A filosofia de um clube, o estilo de jogo implementado, as preferências do treinador e até o esquema táctico são elementos que não podemos descurar quando queremos avaliar esta questão./p>

Pense-se em Bruno Pereirinha. Nunca foi um jogador extremamente habilidoso mas hoje começamos todos a reconhecer-lhe talento. Num clube como o Benfica ou o Porto onde os adeptos sedentos de vitórias exigem resultados ou pelo menos jogadas empolgantes, Pereirinha teria acabado dispensado ao Nacional da Madeira ou para Vitória de Setúbal. O Caso de Sergio Busquets ainda é mais paradigmático de como uma filosofia de um clube pode ser determinante para o sucesso de um jogador. Sem Guardiola e o Barcelona Busquets seria incapaz de algum dia jogar na liga dos campeões. À imagem do seu treinador, busquets não é um talento nato. Todavia, entende perfeitamente o jogo e consegue dar grande equilíbrio táctico ao jogo do Barcelona. O esquema táctico é também determinante para avaliar de que forma um jogador rende ou não. Tenho em mente dois exemplos para explicitar esta ideia: Hulk e Aimar. O primeiro no Benfica não seria minimamente o jogador que é o no Porto. Porquê? Porque em 4-4-2 Hulk ocuparia quase de certeza o centro do terreno, e ai, onde os espaços sãos mais curtos o brasileiro é francamente mau. Depois, e mesmo que o “incrível” ocupasse uma faixa não o estava a ver a vir buscar jogo atrás como faz Reyes. Hulk tem brilhado no Porto porque dele só se espera que em duas ou três jogadas desequilibre. É um jogador de picos sem mais nenhum atributo tecnico que se possa reconhecer, e se existe hoje uma verdadeira "hulkmania" é porque a equipa do Futebol Clube do Porto é equilibrada e tem jogadores capazes de ocupar bem os espaços mesmo quando Hulk desquilibra defensivamente. Ora se o equilíbrio táctico da equipa do Porto faz com que o brasileiro tenha muitos momentos de espectáculo e gláudio dos adeptos, por outro impede-o de evoluir. Apesar de neste momento Hulk conseguir ler melhor o jogo do que quando chegou a Portugal, a verdade é que ainda está muito longe dos padrões tácticos aceitáveis. Quando lhe encurtam os espaços, ou quando o adversário desce a defesa, Hulk fica sem a sua única arma: a capacidade de explosão e de ir no um-para-um. Mesmo Cristiano Ronaldo, que não é um excelente exemplo de um jogador tacticamente evoluído, consegue quase sempre entender bem os momentos do jogo e o que deve fazer quando lhe fecham o espaço para as arrancadas. Se nos lembrarmos do Ronaldo da final e meia-final da champions do ano passado, não recordaremos nenhuma jogada estonteante do extremo português mas sim um par de raides ora pela esquerda ora pela direita que possibilitavam tirar a bola perto da sua área e um fantástico golo de cabeça onde apareceu, oportuno, e à ponta-de-lança finalizar com toda a classe. A principal encruzilhada do futebol de Givanildo Vieira é econtrar-se com um estilo europeu de jogo. Enquanto não ultrupassar as barreiras culturais que diferenciam a liga dos Campões da liga japonesa, Hulk nunca será o jogador que o seu potencial esconde. Enquanto não entender que o futebol é jogado 11X11, e que nem tudo que um jogador habilidoso e potente como ele é, tem que fazer é fintar, rematar, e aparecer em zonas de perigo Hulk nunca passará de uma promessa./p>

Aimar ainda é um caso mais triste de insucesso (nao que o brasileiro seja um caso de insucesso antes pelo contrário) no futebol português. Pensar em Aimar e no seu futebol simples e ao primeiro toque como uma inutilidade é estúpido. É estúpido também ver um autêntico craque a não mandar uma para a caixa, mas Quique Flores insiste num 4-4-2 com o argentino perto do avançado e longe da fase de construção. Jogadores como o 10 encarnado são jogadores especiais e precisam de encontrar certas especifdades numa equipa para poderem brilhar, são jogadores que se destacam pela cabeça e não pelo músculo e precisam de encontrar a sua volta jogadores e técnicos que entendam a magia do seu jogo. Fora do seu espaço normal, Aimar é um jogador banalíssimo. Nem os seus raros momentos de génio, o passe de letra para Suazo no jogo em Guimarães, conseguem cativar os adeptos da luz. É pena, é pena…/p>

Por fim, o ultimo factor essencial para a adaptação de um jogador é o campeonato. Imaginem van der Vaart, Totti, Guti ou Diego no futebol inglês. As transições defesa-ataque que decorrem a uma velocidade estonteante não se coadunam com o perfume do seu futebol. O estilo de kick-and-rush inglês, que apesar de nas principais equipas estar um pouco esbatido, é incompatível com a qualidade técnica destes jogadores. Terá sido por isso que Veron não vingou em terras de sua majestade?Imaginem agora Peter Crouch em itália? Seria dificil um jogador sem cultura tactica e dado a marcações menos pesadas que as inglesas a jogar num futebol ardiloso italiano. Há quem ache que a altura de Crouch seria suficiente para resolver o problema. cremos que não. Não há centimetros que valham contra uma marcação eficaz, a não ser que haja cabecinha para evitar essa marcação.

15.4.09

Os suspeitos do costume

Ontem à frente desse espaço cardeal da cidade de Coimbra que é o café troica um grupo de estudantes de direito discutia o problema dos pontas-de-lança, e quais os paradigmas que actualmente vingam relativamente a essa posição. Portanto, e por razões que não valem a pena ser explanadas, não consegui passar correctamente a minha ideia. Passo agora e por escrito a faze-lo.

Começando pelo inicio, diga-se que gordos, magros, altos, ou baixos, rápidos ou lentos os Avançados não obedecem a nenhum padrão fisionómico pré-establecido. É impossível num futebol de alto nível ser-se extremo se não tivesse tido pelo menos alguma velocidade. Pelo contrário, num avançado a velocidade pode não ser a chave da questão. Lembro que Pipo Inzaghi nunca foi nem será um jogador rápido e forte mas sempre foi um ponta de lança temível. Por outro lado, Henry que para muitos foi o melhor avançado da Europa na última década faz, por seu turno, a sua principal arma a velocidade. Como podemos observar não há nenhum estilo de avançados próprio.

Que características deve ter um bom avançado perguntarão os mais desatentos? Ser um matador! Responderão em unionissio todos os entendidos na matéria. Nada de mais errado. O avançado deverá ser um jogador de equipa, um elemento do colectivo que se consiga integrar nas dinâmicas ofensivas da equipa e que com isso se capaz de criar não só perigo de remates de cabeça ou em zona de finalização. Vejamos o caso de Wayne Rooney. Rooney é hoje um dos melhores avançados do mundo. Todavia e se formos ver o numero de golos marcados pelo internacional inglês ao longo das épocas apercebemo-nos que ele tem poucos golos. Sim claro porque ele não é um finalizador. Não. Rooney é um finalizador nato. O seu trabalho, todavia, é de construção não se limita a ver jogar para depois encostar. É um trabalhador incansável durante os 90m, é o primeiro da sua equipa a defender e é aquele que dá estabilidade a qualquer transição defesa-ataque. Em Portugal, Farias leva já 8 golos em poucos minutos. Tenho a dizer que sempre fui apreciador das qualidades do argentino. Agora pedir a Farias que jogue em ataque continuado, com qualidade e em prol da equipa é o mesmo que meter o Mantorras de inicio. È ter um ponta-de-lança estaca à espera de finalizar. Farias é um avançado-centro à antiga, preso na área, nas amarras dos centrais. É um avançado ao estilo de um fenómeno que nos anos 90 e inicio deste século assolou Portugal: Super Mário Jardel. Se perguntáramos a qualquer jovem português com menos de trinta anos qual o melhor finalizador que alguma vez viu todos responderão o mesmo: Mário Jardel. Com o seu estilo pouco ortodoxo e pesadão, Jardel marcou uma geração com os seus golos. De todas as formas e maneiras Jardel assombrou as defesas de Portugal. Os 42 golos marcados em 30 jogos constituem uma barreira mítica na qual tenho duvidas que alguma vez será quebrada. Jardel é típico jogador que encaixa num sistema não de 11 jogadores mas sim num 10+1, isto porque a sua produtividade ao longo do jogo é quase nula. Digo quase enquanto pormenor, pois o pouco que fazia era o golo da vitória. Porém, vejamos como Jardel se encaixaria em dois sistemas paradigmáticos na Europa:

· No Barcelona, Jardel seria um verdadeiro peso-morto. A entreajuda e a qualidade do futebol colectivamente pensado é a grande força do barça. Claro que ajuda ter Messi, mas como já aqui foi dito o que faz andar a máquina de Pep Guardiola não é o talento individual de cada um dos seus jogadores mas a equipa no seu todo. Etoo, Henry e Messi não constituem por si só como referências de área mas sim como avançados móveis capazes de dar estabilidade defensiva e profundidade ofensiva.

· No United, Liverpool ou qualquer outra equipa dos Big Four, um jogador como Jardel também não resolveria problema nenhum. Como é sabido o futebol inglês assenta na rapidez das suas transições e na capacidade de cada um dar ritmo e intensidade ao jogo. Assim sendo, parece-me ser difícil que o Jardel que actuou em Portugal tivesse o ritmo necessário para se adaptar às exigências físicas de um futebol atlético como o inglês.

Voltando à questão da necessidade básica de o avançado ser sobretudo matador, e por matador entendo que seja um jogador que marque muitos golos por época, vamos a uma referência: José Mourinho. Se repararem as equipas de Mourinho raramente, e apesar de serem sempre os melhores ataques do campeonato, não tem goleadores. Em 3 anos de chelsea, Drogba marcou 10, 12 e 20 golos respectivamente. No porto, em 2002/2003 Postiga foi o melhor marcador da equipa com 10 golos. Este ano Zlatan dada a sua ínfima qualidade tem assumido vários papéis. O de construtor de jogo, e de finalizador. Mas isso advém, como disse, da qualidade extrema de Zlatan e da falta de criatividade do resto da equipa. Sem Ibra o Inter de Mourinho seria pouco mais do que banal, seria uma equipa sem rasgo e sem chama. O sueco é hoje o melhor avançado do mundo. É o exemplo crónico de tudo o que um bom ponta-de-lança deve ter. Capacidade técnica acima da média, bom posicionamento táctico, finalização, bom jogo entre as linhas, capacidade de desmarcação…ou seja podia estar aqui durante mais 842 palavras a descrever tudo de bom que Zlatan tem.

Para terminar, e tentado fazer uma súmula daquilo que foi dito, o futebol evoluiu face aos tempos de Yazalde e Fernando Gomes. Hoje exige-se mais do de um finalizador. Exige-se um jogador que seja capaz de jogar num esquema táctico dinâmico e que dê equilíbrio a todas as manobras da equipa. Sejam elas ofensivas ou defensivas. No futebol, e seguindo as palavras de Cruiff defende-se e ataque-se com 10. Romário para antigo treinador do Barcelona tinha que ser “o primeiro defesa”, se ele não saísse a pressionar o defesa adversário que iniciava a jogada de ataque todo o processo defensivo do Barcelona estava condenado. É nesta concepção que nos revemos.